O principal encontro de lideranças e especialistas de transporte de passageiros sobre trilhos do país ocorreu na quarta-feira (26/8), em Brasília. O Conexão ANPTrilhos reuniu figuras de destaque do setor público e privado para debater o planejamento e o desenvolvimento das cidades brasileiras. O ponto central da abertura do evento foi o lançamento da campanha No Trilho Certo.
A Diretora-Presidente da ANPTrilhos, Ana Patrizia Lira, abriu os trabalhos apresentando dados sobre o cenário da mobilidade nacional que acendem um alerta. Uma pesquisa da Confederação Nacional do Transporte, realizada em 2017 e repetida em 2024, revelou uma migração em massa para o transporte individual motorizado no Brasil. Em sete anos, a divisão que era equilibrada em 50% para transporte coletivo e 50% para individual passou a ser de 68% de uso do transporte individual e apenas 32% do transporte público. Para reverter esse cenário, a mesma pesquisa questionou os passageiros sobre o que os faria retornar aos sistemas coletivos, destacando como prioridades a tarifa menor, maior conforto e mais rapidez.
A campanha coloca no centro da discussão a experiência de quem se desloca diariamente pelas cidades, conectando as decisões sobre obras, investimentos e financiamento às necessidades concretas dos passageiros. O desafio é tornar o transporte coletivo uma escolha mais viável para milhões de brasileiros, com tarifas que pesem menos no orçamento, viagens mais rápidas e sistemas integrados. Para isso, a proposta defende um modelo de financiamento mais equilibrado, que distribua entre os diferentes beneficiários da mobilidade os custos de manter, qualificar e ampliar os serviços. Na prática, isso significa garantir ao cidadão mais acesso a empregos, educação, saúde e serviços, fortalecendo seu direito de ir e vir.
Os números mostram o impacto que essa transformação pode ter. Atualmente, os sistemas metroferroviários beneficiam diretamente 49,8 milhões de pessoas em 73 municípios e geraram R$ 44,6 bilhões em benefícios econômicos e sociais somente em 2025. A expansão prevista pelo Estudo Nacional de Mobilidade Urbana, com 91 projetos e 1.749 quilômetros de novas redes, representa uma oportunidade de reduzir tempos de deslocamento, aproximar pessoas das oportunidades e transformar a mobilidade em uma política permanente de qualidade de vida.
Com base nesse diagnóstico, a ANPTrilhos apresentou a campanha No Trilho Certo, estruturada em três propostas fundamentais para o próximo ciclo de governo:
Primeira proposta: Tarifa mais justa para quem usa o transporte público e financiamento permanente. O objetivo é criar uma política nacional de modicidade tarifária compartilhada entre União, estados e municípios, aliviando o peso da passagem para os usuários sem comprometer a qualidade operacional. A campanha sugere atualizar a lei do vale-transporte e buscar fontes alternativas estáveis de recursos, como o fortalecimento da Cide-Combustíveis, pedágios urbanos ou taxas de congestionamento.
Segunda proposta: Cidades integradas, mobilidade mais eficiente e governança metropolitana. Defende-se a criação de instâncias de coordenação federativa para planejar os sistemas de transporte como uma rede única e integrada, superando a fragmentação de linhas concorrentes. A integração de rotas, tarifas e meios de pagamento reduz custos e facilita o dia a dia do passageiro.
Terceira proposta: Mais trilhos para as cidades e garantia de investimento contínuo na expansão da rede. A campanha propõe estabelecer um patamar mínimo de investimento de R$ 20 bilhões por ano para ampliar as redes de trens e metrôs nas regiões metropolitanas. Essa expansão deve priorizar os projetos estruturantes já mapeados pelo Estudo Nacional de Mobilidade Urbana nas maiores regiões metropolitanas do país.
Durante a abertura, os demais componentes da mesa compartilharam visões estratégicas sobre o futuro da infraestrutura nacional.
O Presidente do Conselho de Administração da ANPTrilhos, Julio Castiglioni, ressaltou que o atual momento eleitoral é uma janela de oportunidade essencial para que a sociedade e os candidatos escolham o futuro da mobilidade urbana. Ao exemplificar com a metrópole de São Paulo, Castiglioni pontuou que a mobilidade urbana é o fator que abre a cidade para as pessoas. Sem ela, os espaços urbanos se fecham para o cidadão.
O Diretor de Relações Institucionais da CNT, Valter de Souza, destacou a urgência de regularizar e ampliar os investimentos em infraestrutura de transporte. Ele lembrou que o Brasil investiu cerca de 2% do PIB no setor em 1975, enquanto recentemente esse valor caiu para cerca de 0,5% do PIB. Ele defendeu que a atração de capital privado de longo prazo depende fundamentalmente de segurança jurídica. Valter também celebrou a aprovação do Marco Legal do Transporte Público e anunciou um convênio com a ANPTrilhos para a capacitação profissional no setor metroferroviário.
Jorge Bastos, diretor-presidente da Infra S.A., apresentou o Plano Nacional de Logística com horizonte até 2050 como um norte fundamental para dar continuidade aos projetos do país. Ele revelou que a Infra S.A. está conduzindo um estudo de viabilidade para ligar as capitais do Nordeste por trilhos, começando pelo trecho entre João Pessoa e Recife, além de desenvolver um índice de cobertura espacial de transporte para identificar oportunidades de expansão com base em dados de atendimento.
A superintendente do BNDES, Luciene Machado, relembrou o compromisso histórico do banco com a infraestrutura e detalhou os bastidores do Estudo Nacional de Mobilidade Urbana, elaborado em parceria com o Ministério das Cidades. Ela ressaltou que 86 por cento das localidades brasileiras carecem de uma governança metropolitana integrada de transportes. Segundo Luciene, o estudo, que mapeou 187 projetos prioritários nas 21 maiores regiões metropolitanas, serve como um convite para construir uma visão técnica comum e tirar os investimentos do papel.
Encerrando as falas da abertura, o ministro das Cidades, Vladimir Lima, enfatizou que o transporte de passageiros sobre trilhos é estratégico para a produtividade e a sustentabilidade das metrópoles. Ele informou que o Ministério das Cidades destinou mais de 7 bilhões de reais em investimentos desde 2023 para obras de VLTs, trens, metrôs e terminais. Adicionalmente, destacou as ações de descarbonização da frota pública, com a seleção de mais de 15 mil ônibus elétricos ou de baixa emissão.